Poderia ser a câmera fotográfica uma prótese do olho, que vê por mim? O que vemos, hoje, é uma grande corrida em massa para se acompanhar as frequentes inovações da indústria fotográfica. A publicidade tem realizado bem sua missão: criar ficções por meio da propaganda para alcançar a meta de vendas, que dizem sobre uma possível promessa de redefinição de criatividade, por meio do aparelho fotográfico.
Criatividade redefinida? Então a câmera tem o poder de redefinir a criatividade? Mas de quem? De si mesma? De quem a utiliza? Muitas vezes, questionamentos como este passam despercebidos. A intenção central de todas as publicidades é impor uma lógica em si mesma, e esteja longe disso qualquer pensamento questionador e crítico. Não se vende o produto, mas o ideal dele. E nesse espaço do ideal, o mercado explora gananciosamente todas as possibilidades de supervalorização da máquina. Nós estamos no meio de todos estes ideais, que vão do corpo perfeito às virtudes inteiramente humanas (como no caso em questão: a criatividade).
Por mais que exista uma ambiguidade de interpretação no título da propaganda que promete uma redefinição da criatividade, sua formulação é inteiramente intencional. A indústria fotográfica vive em busca do equipamento perfeito, superespecializado. Tudo isso em troca das fotos perfeitas? Da câmera infalível? Da lente como prótese do olho e que visa ultrapassar o próprio olho? (in)Felizmente sim. E estamos todos aqui, envolvidos de corpo, alma e bolso.
Quem faz a foto não é a câmera! É engraçado dizer isso porque o discurso retorna exatamente após ser dito. Se a câmera não faz a foto, então quem faz? O fotógrafo? Entre essa relação de câmera e fotógrafo, vejo a necessidade da pergunta-chave: O que é uma câmera? Usamos a câmera fotográfica como objeto, para além do nosso corpo. Então ela seria um aparelho, máquina ou instrumento?
O instrumento é algo que usamos como se fosse extensão do corpo. Exemplo: A máquina de lavar roupas, apesar de ser nomeada de máquina, faz uma atividade para poupar o uso do nosso corpo. A máquina é um instrumento maior que o corpo e tem força física para destruí-lo. Um avião, por exemplo. Aparelho é todo o objeto que acreditamos manipular, mas que, na verdade, nos controla. No ato de manipulá-lo, temos que conhecê-lo. Mas, ao conhecê-lo, percebemos que suas potencialidades são infinitamente maiores que nossa capacidade de conhecê-lo. O computador é um exemplo.
Dentre os três conceitos, a câmera fotográfica fica numa linha tênue entre o instrumento e o aparelho. E o que vai determinar a apropriação de um ou de outro será a criatividade de quem a utiliza. Criatividade. Volto à palavra que estimulou o texto.
No aparelho, a criatividade é uma dimensão técnica e científica. A criatividade publicitária, que ao vender o aparelho vende também a promessa de uma ilusão, cria um aprisionamento do sujeito que, ao se deixar objetivar na relação com a câmera enquanto aparelho, deixa de ser sujeito no ato da foto. É manipulado na ilusão de manipular. É enganado por si mesmo.
Para pensar a câmera enquanto instrumento, recordo-me da obra “A Filosofia da Caixa Preta – Ensaios para uma futura filosofia da fotografia”, do filósofo tcheco Vilém Flusser, que formulou uma teoria sobre questões relacionadas à fotografia e à modernidade. Dentre as relevantes contribuições, ele aponta, já no final do século passado, os caminhos que se delineavam sobre a câmera sendo assimilada como aparelho obscuro de imagens instantâneas. A criatividade-instrumento ressurge por essa ótica de apropriação, na etimologia da palavra, derivada de criar, que vem do latim creare, “erguer, produzir”. Aquela que ergue o olhar e se reinventa, se movimenta e produz. A relação se inverte: a câmera deixa de ser aparelho ativo manipulador para se tornar um mero instrumento passivo; as imagens deixam de ser meramente a materialidade de um aparelho – cópias falseáveis de uma suposta realidade – para adquirirem valor em um campo maior e inteiramente rico: de criação, experiência; a lente deixa de ser uma prótese do olho de quem vê, para se tornar um instrumento subordinado do olho

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